Memórias carnavalescas

 

Marcos Martino

 

Homenagem ao Verde Terra no carnaval.

Foto do acervo de Neo Gemini.

 

Fechei os olhos e puxei pela memória as imagens dos primeiros carnavais alvinopolenses de que me lembrava. A primeira imagem que me veio a cabeça foi a dos mascarados. O bloco passando na porta e eu escondido, doido pra olhar, mas morrendo de medo.

 

Outra lembrança forte foi de um chegado da nossa família ( Martino). Eu estava no quintal da casa do meu avô Dominguinhos na rua de cima, quando apareceu um sujeito vestido de astronauta. Fiquei doido. Como é que um astronauta foi parar em Alvinópolis? Eu via muitos astronautas na tv preto e branco da minha casa. Passava Capitão Asa na TV( um programa da época da ditadura, que procurava passar para as pessoas uma imagem simpática dos militares como pessoas paternais e heróicas). Aquele sujeito no quintal  com roupa toda branca metalizada, com aquele capacete e ainda recipientes presos às costas, parecendo tubos de oxigênio, foram o máximo pra mim. Pensei comigo: esse negócio de carnaval é bacana. Todos tem liberdade de se tornarem o que quiserem. Depois fiquei sabendo que o tubo de oxigênio dele tinha cachaça dentro e um canudinho que dava direto dentro do capacete.

Naquele dia mágico, meu avô ofereceu carona para levar esse astronauta maluco e despejá-lo na praça da baixada. Ele e outro colega vestido de mulher sentaram-se atrás do Jipe e aterrissaram na baixada. Depois nunca mais os vi. Devem ter retornado para o espaço. Assim como o marinheiro da letra de Adeus Marinha.

 

Nos anos seguintes, passei a ir nos bailes matinês. Objetivo: capturar o máximo de confete e serpentina espalhados no salão. Eu adorava aquilo. Ah...e estreava o kichute da hora. O calçado era importante para a guerra das botinadas no salão.

 

Eram lindos os desfiles alegóricos que aconteciam em Alvinópolis naquele tempo. Cada clube tinha seu tema e ninguém queria ficar pra trás. Alvinopolense e Industrial dominavam, mas o Pinga Rato também fazia bonito. Vez por outra acontecia  uma pororoca, um encontro das águas, um encontro de dois desfiles. O clima ficava tenso. As bandinhas tocavam com mais potência seus hinos. ( e como são bonitos os dois hinos. Bambas do Gaspar é uma das marchas mais bonitas que conheço e Adeus Marinha tem uma história cinematográfica).  De vez em quando uns pescoções, mas não passava disso.

 

Bloco BAG - Comandado por Zé Luiz

Foto do acervo do Mauro Sérvulo

 

Um pouco mais à frente, apareceu o BAG. Era uma charanga, uma fanfarra, uma bateria maravilhosa só com feras nas baquetas. Alguns percursionistas eram mais fixos e havia vários colaboradores que iam se revezando nos instrumentos. Dico e sua turma fizeram alguns surdos treme-terra gigantescos que realmente faziam a cidade tremer.  No meio do bloco, muita gente fantasiada. Os homens vestidos de mulher, tortos de tão bêbados e muitas mulheres também vestidas de homens. Lembrança de Bastião de Olga que parecia uma charge viva. As cores do BAG eram Azul, Vermelho e Preto. Tinha o Azul do Industrial, o Preto do Alvinopolense e o Vermelho pra mediar. Mas exatamente por causa da política futebolística, houve desentendimentos no bloco. Em um dos carnavais, alguns componentes cismaram de sair com camisas dos clubes, o que gerou ciúme e acabou desanimando a turma.

 

Depois vieram os carnavais das escolas de samba. Primeiro com Ulisses, depois Aurélio com a Escola de Samba Unidos do Morro. O Alvinopolense também tinha Tuôla que botava pra quebrar. Nessa época, os Clubes Alvinopolense e Industrial tinham carnavais de clube super concorridos.  A gente ia nos dois bailes. O cordão humano ficava rodando no salões e as furiosas botavam pra quebrar. Não havia uma sensualidade explícita, mas a paquerinha rolava solta. Depois apareceu o bloco do Saco Sujo, que era o máximo. A turma abusava um pouco do Loló, mas a diversão era muito sadia. Lembro-me que uma vez abracei uma menina. Ela retribuiu. Eu não consegui reconhecê-la e nem ela me reconheceu. Ficamos brincando abraçados e só fomos descobrir os rostos na praça da baixada. Resultado: era uma ex-namorada. Algum constrangimento? Nenhum. 

 

No carnaval tem aquela música...”vou beijar-te agora, não me leve a mal, hoje é carnaval”. Depois vieram os carnavais populares na praça e o carnaval perdeu um pouco da espontaneidade. De uns anos pra cá, Alvinópolis voltou a ter excelentes carnavais de rua. Nosso grupo musical, o Verde Terra, teve a honra de ser homenageado durante um desfile da Bio Extratus, que também passou a promover um desfile com carros alegóricos e gente no chão. Foi muito emocionante. Criaram um carro de som temático, com nossos troféus e tudo. Produzi uma versão mais acelerada de Interior e o Verde Terra foi sobre o caminhão cantando. Já posso até morrer (rs).

 

E nos últimos anos surgiram blocos novos, como os Quebradeiros e os Piratas, que arrastam enormes multidões e trocam as antigas marchinhas e sambas pelos ritmos da moda, como o funk, sertanejo e axé.  O certo é que o carnaval de Alvipa voltou a ganhar fama e a atrair foliões. Tomara que esse ano haja preocupação com a terceira idade, com bailes populares na praça do Gaspar. E quem sabe não apareça um bloco que congregue a turma que já passou dos enta? Quem sabe os bambas do gaspar não voltem a pedir licença para farrear? Quem sabe o Industrial ou Alvinopolense não voltem a fazer belos carnavais? Quem sabe o Pinga Rato não ressurja como uma fênix? Quem sabe novos blocos, novas ideias, novos foliões?

Quem sabe o carnaval não invada os corações da gente, nos dando permissão para enlouquecer um pouco, errar a mão, botar os dedos para cima e gritar o que nos dê na telha. Eu já sei o que vou gritar : "Pruuutcháááá. Mas Uriaba também vale...

 

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Marcos Martino é alvinopolense, poeta, escritor, jornalista, músico.

Email : marcos.martino@gmail.com