Macumba azul

 

 

José Maria de Carvalho

 

 

Meu saudoso pai, Caetaninho Carvalho, era um fanático torcedor do Industrial Sport Club, de Alvinópolis. Contava com muito orgulho, que tinha sido um dos fundadores do clube, em 1938.

 

Na década de 1950, era enorme a rivalidade entre o Industrial e o Alvinopolense.

Muitas vezes, torcedores chegavam até as vias de fato, ou, se preferirem, saiam era nos pescoções, mesmo!!!

 

Devido a essa rivalidade, todo time que ganhava do Alvinopolense, o Industrial convidava pra jogar. E vice versa.

Certa feita, o Alvinopolense trouxe um time de João Monlevade pra jogar aqui em Alvinópolis.

Time bom, bem treinado, sapecou três a zero no Alvinopolense !!!

Pra quê !!!

 

O Industrial foi logo convidando o mesmo time, pra fazer um amistoso !!!

- Vamos mostrar quem é o melhor !!!

Diziam os dirigentes celestes.

Jogo marcado pra  um mês depois.

Tempo suficiente pro Industrial treinar e vingar o rival !!! 

 

Na semana do jogo, o goleiro titular do Industrial , Tito Ossada, por sinal, excelente goleiro, se machuca... 

Vai pegar no gol o seu reserva, Zé Pelado. Tratorista dos bons, tomador de goles, melhor ainda... Mas, goleiro... Ficou difícil.

 

Preocupado com a situação, junto à qualidade do time visitante, meu pai, aliado a Jucazinho, outro dirigente celeste, ficaram sabendo que no povoado dos Dias tinha um benzedor, chamado Raimundo Guiné, que era "tiro e queda".

 

Meu pai não era de acreditar muito nessas  rezas, mas, por via das dúvidas...

Combinou  que o benzedor ficaria atrás do gol onde Zé Pelado iria atuar e fazer os trabalhos de “fechar do gol”.

 

 

No dia do jogo, Raimundo chegou bem antes da partida, trajado num terno marrom, e fez um estudo do campo. Depois verificou na sua bolsa os produtos que fariam parte da benzição.

Retirou uma garrafinha de água benta, muita arruda, raízes diversas, fez orações, caminhou dentro do gol proferindo algumas palavras indecifráveis, olhando pro céu e benzendo.

No final da oração, sempre dizia :

-Aqui tá fechado !

Fez este mesmo ritual várias vezes, sob o olhar dos dirigentes azuis.

Todos saíram convencidos que aquilo seria a salvação do time azul e branco.

 

Bola que rola, e o time de Monlevade, faz um gol, dois, três, quatro, cinco...

Todos em falha de Zé Pelado!!!  Termina o primeiro tempo.

 

Meu pai, fulo de raiva, vai tirar satisfações com o benzedor:

-Eu tô te pagando uma fortuna pra fazer esse serviço e nós estamos tomando uma balaiada dessas?

 

- É seu Caetaninho, com Zé Pelado no gol, não tem macumba que dê jeito !!!!

 

 

José Maria de Carvalho é alvinopolense.

Contato :  josemaria_decarvalho@yahoo.com

 

Colunas anteriores